sábado, 31 de outubro de 2015

Seu Lua





Bastava! Essa madrugada a cadela de dona Bené e seus filhotes haviam sido estraçalhados, no quintal. Ao menos é isso que minha tia me contou. Não pude ir lá ver a cena, mas também não esperava que convidassem uma criança a presenciar um massacre desses (embora alguns dos meus amigos de rua juravam ter espiado por cima da cerca do quintal vizinho).
Nesta mesma manhã, os jovens da rua se reuniram no rol de uma das casas e decidiram que montariam uma estratégia para pegar o culpado. Há tempos havia a suspeita de um monstro estar rondando o bairro, mas a confirmação só veio após o crime da noite passada e as provas em forma de marcas de garra serem deixadas nos pobres animais.
A Lua cheia flutuava no céu e a rua se esvaziou mais cedo. Mas ninguém foi dormir, como de costume. Seguindo o plano, todos ficariam prostrados nas portas de suas casas aguardando qualquer movimento estranho. Eu preferi ficar no meu quarto, cuja janela dava para a rua (como eu não me atreveria a sair, mesmo, não tinha porque ficar plantado na porta). Teve até gente marcando de dormir na casa do amigo, para poderem se ajudar a não pegar no sono. Ninguém era besta – a gente sabia que essas coisas só aconteciam lá pela meia noite.
E foi mais ou menos nessa hora que os cães da rua começaram a latir. E não eram latidos baixos, eram assustadores. Olhei pela fresta da janela tentando ver alguma coisa lá fora. Tudo o que consegui ver foi Galego, o menino que morava na casa de frente à minha, abrindo a porta da sua casa e indo para a rua. Logo uma multidão de meninos passou correndo, ainda ao som dos latidos. Eu via alguns carregando paus, outros levando facas e outros segurando cordas.
Então começou a sequência de vultos inidentificáveis passando pelo meu restrito campo de visão. Ora eu acreditava ser cachorros, ora meninos. A gritaria só se ampliava e os animais latiam cada vez mais intensamente. Foram uns dez minutos nesta tensão, até que houve meio silêncio.
–Fugiu! – Foi a única frase que consegui captar.
Cogitei abrir a janela e ver o que ocorria, já que agora reinavam diálogos atropelados sobre, creio eu, o que tinha acontecido. Mas ainda tremia e preferi cair para o lado, na minha cama.
Ao amanhecer, corri para a rua à procura de indícios do que havia acontecido. Eu tinha certeza que os meninos não me contariam. Eles eram mais velhos e adoravam manter as coisas entre eles, para sustentar certa soberania no bairro. Voltei desolado, porque tudo o que pude ver foram os mesmos cachorros dormindo nos passeios.
Foi então que minha tia chegou em casa:
-Sabe seu Lua, que mora na casa de adobe ali da esquina? Sofreu um acidente! Caiu da escada e está todo machucado. Estão levando ele agora para o hospital.
Não sei se ela falou na inocência ou tinha o intuito de me despistar. O que importa é que eu sabia. Todo mundo que presenciou aquela noite (ainda que seja pela fresta da janela) ligaria os pontos. Daquele dia em diante, a identidade de seu Lua não estaria mais preservada.

25 de Outubro de 2015

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