quinta-feira, 24 de setembro de 2015 0 comentários

Escritor das quebradas

Infeliz é o escritor das quebradas que se esforçam para encontrar a beleza naquilo que vê no dia-a-dia. Se esforça, porque não enxerga o que há de belo em cada momento, rosto ou lugar com os quais se depara. Se lamenta por não ter as areias de Ipanema, a praia de Itapuã. Se lamenta por lhe faltarem campos de girassóis e musas monalísicas.
Infeliz é o escritor da quebrada que passa batido pelo reboco danificado. Pelas lajes alagáveis. Pela serpente de luz formada pela fileira de postes da avenida. Pelos buracos no asfalto mofados em formato de flor. Pelo ninho de passarinho no canto da calha e pela barraca de coco com a lona rasgada.
Infeliz é o escritor da quebrada que não sabe que é escritor. Que não sabe que a quebrada é bela. Que não sabe que a quebrada é ele.


Pablo Jacinto

01 de agosto de 2015
quinta-feira, 17 de setembro de 2015 0 comentários

O Xelp

Xelp matinal - sutil e eficaz:
Vou eu, calmamente, aumentar o limite do crédito do meu cartão (antes que perguntem, é limite de conta universitária, então não é nada de encher os olhos). Acordei cedo, peguei um ônibus, atravessei a cidade e cheguei na minha agência.
Infelizmente, é uma agência de shopping, e hoje o inferno estava montado, por causa das festas de fim de ano, mas isso é assunto para outra. Esperei uma hora na fila (os caixas estavam fechados), peguei minha senha e fui rapidamente atendido.
Chegando lá, fui atendido por um senhor bem gentil. Entreguei os documentos e ele foi fazendo os procedimentos, enquanto conversava sobre como 2014 tinha sido ruim. Então lembrei de uma dúvida que eu tinha, e perguntei:
-Ah, senhor, me responda uma coisa, por favor: após eu me formar, quanto tempo eu ainda posso ficar com a conta universitária?
Então ele responde de uma forma que - com certeza - vou morrer sem saber se foi inocência ou ironia:
-Por quê? Você não tem previsão de arrumar um emprego após se formar?
Um feliz 2015 para os meus amigos formandos!



Pablo Jacinto

17 de dezembro de 2014
quinta-feira, 10 de setembro de 2015 0 comentários

O Sinestésico



Teve aquele dia no qual
eu conheci um sinestésico.
Imagine que constrangedor foi
me desculpar depois de o perfume
que passei, naquela manhã,
ter apalpado a bunda dele.


Pablo Jacinto
15 de maio de 2014
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Lili

O pai de Lili achava que sua esposa tinha escolhido esse nome para a filha em homenagem à falecida mãe dele, Eliane, uma doce.
Lili cresceu achando que era uma lembrança aos campos de lírios (lily, em inglês) que rodeavam a cidade na qual havia nascido.
Os amigos maconheiros de Lili se esforçavam para acreditar que tudo era uma referência à música de Edson Gomes, que brada a liberdade.

Mal sabiam eles, mas Margaret, mãe de Lili, simplesmente era viciada em tubaína de limão.



Pablo Jacinto
08 de julho de 2015
quinta-feira, 3 de setembro de 2015 0 comentários

De mal a Mara



“Amiga, fui muito mal na prova”. Mal havia subido no ônibus lotado e me acomodado em um espaço vago, na parte do fundo, foi esta a primeira frase que ouvi, partindo de uma amiga à outra – ambas, também de pé. “Acho que vou abandonar o curso, comecei agora e já estou me saindo desse jeito, na matéria!”. Pronto. Foi o suficiente para a amiga ligar o modo conselheira e jogar na mesa todo aquele roteiro que, muito provavelmente, a desesperada já tinha conhecimento, mas teria apreço e prazer em ouvir novamente.
“Mas menina, não abandone. É normal não ir bem em algumas matérias. Olhe só em quantas matérias você foi exemplar. Ainda tem cinco anos de curso, pela frente, então acostume-se...” são alguns trechos do discurso dito.
A esta altura, meu fone de ouvido já exercia seu papel de acessório de espião. Estava tocando música, mas no volume mínimo possível que me permitisse ouvir a história com trilha sonora dos Smiths. Reparem vocês e decidam se não foi o Universo, pregando das suas. Meia hora antes, eu estava, junto com colegas, em uma turma de cursinho discutindo os desafios da escolha profissional. Pode não ser ético escutar a conversa dos outros, mas recusar um presente também não é. E aquela situação era a montagem perfeita. A proximidade ocasionada pela superlotação tem algumas vantagens, afinal.
E, como previ, a conversa foi o gatilho para um diálogo sobre a vida universitária. A coitada só via o namorado nos fins de semana, agora que começou a estudar. Não tinha mais tempo para dormir direito. Estava afogada de Xerox que nunca seriam lidas. Repito: previsível. Eu já até compartilhava com ela sua frustração pela turma mesquinha cheia de gente que não sabia trabalhar em grupo.
De repente seu telefone toca. Dentro da sua bolsa. No colo de um sortudo que provavelmente subiu no ônibus na estação.
“Alô. Oi! Como assim? Você está onde? Sim, mas diga: VO-CÊ ES-TÁ ON-DE?”.
Ai meu deus, será que aconteceu alguma coisa com algum conhecido dela?
“Sim, responda! Diga o que aconteceu! A ligação não está boa, diga rápido”.
Eu sentia a tensão na sua voz. Não sei lidar com lutos, nem com notícias ruins dadas por telefone, tomara que esteja tudo bem com os conhecidos dela.
“Mas Mara, você me liga uma hora dessas para me dizer essas coisas? E eu lá sei!? Resolvam-se vocês dois!”
Maldita Mara, criadora de aflições desnecessárias. Aumentei o volume do som.



Pablo Jacinto
22 de outubro de 2014
terça-feira, 1 de setembro de 2015 0 comentários

O que há de novo para o rei?



Certo... ele estava naquela condição por dois grandes acasos. O primeiro, político: antes que ele nascesse, aquele que seria seu irmão mais velho – na época, com três anos – havia sido envenenado em um esquema que culminou também na morte do seu tio paterno, acusado como mandante do ato. O segundo acaso era biológico: nascer numa família de sangue azul não era algo estatisticamente tranquilizador. Só que tudo isso não significava que ele poderia se dar ao luxo de ser estúpido, estando ocupando uma posição de monarca de um reino tão vasto e com servos tão vis.
Assim sendo, riu muito, por dentro, quando aquele camarada apareceu fazendo movimentos estranhos com as mãos e dizendo que tocava um tecido invisível e impalpável aos impuros. Era cômico o teatro e eram cômicas as faces humilhadas e mentirosas dos súditos do palácio, que esforçavam-se para demonstrar admiração pelo tecido inexistente e preservarem o mínimo de autoestima que ainda lhes restava. Comprou tal roupa e marcou o desfile de exibição.
No desfile, a graça se multiplicou. Agora não era meia dúzia, mas alguns milhares de sujeitos fazendo expressões involuntárias de derrota, mas tentando parecer altivos aos olhos uns dos outros.
-Mas ele está nu! – Grita uma criança.
-Uma criança é o poço da pureza, ela não pode estar mentindo – um dos senhores da audiência problematizou, criando o maior rebuliço no público.
Na cabeça do rei, um “maldita criança!” ecoava. Ele não concordava nessa máxima de que criança e pureza se confundem, mas sabia que os seus súditos sim. Não se importava por todos estarem achando que ele era impuro – nunca teve essa pretensão. O que o incomodava era o fato de não saber quando teria outra oportunidade de satisfazer tão facilmente e com tanta troça os seus fetiches exibicionistas.



31 de agosto de 2015
 
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