As orelhas já treinadas não mais se incomodavam com o calor que o sol do sertão proporcionava ao ferro dos trilhos. E ainda que incomodasse, aquilo tudo tinha um propósito maior: saber a qual distância o trem estava e calcular o tempo que levaria para ele passar por ali. E éramos certeiros.
Bastava
notarmos os primeiros baques que começávamos os trabalhos. Reuníamos as maiores
pedras que conseguíamos catar, entre os dormentes. Criávamos montanhas de
britas de todos os tamanhos que os nossos braços magros conseguissem lançar e
nos escondíamos atrás dos arbustos. Era comum ficarmos escondidos por vários
minutos, vivendo momentos de tensão. Isso provava que éramos mais habilidosos
do que pensávamos e nosso rastreamento estava cada vez mais apurado.
E
então chegava o grande momento. Avistávamos o trem vindo e automaticamente
tentávamos calcular o comprimento dele. Quanto mais vagões de máquinas, maior a
chance de o trem ter muitos vagões de carga. Estes eram os nossos alvos. Os
três permaneciam escondidos, da maneira mais suspeita a possível, temerosos de
que o maquinista fosse parar a locomotiva no meio da zona rural, descer e nos
bronquear. Claro, isso nunca aconteceria, mas é inegável a adrenalina de
imaginar que isso pudesse ocorrer.
Passavam
os vagões principais. Os próximos eram os vagões de força. Então os que
carregavam tanques de óleo (acredito), já em frete. Era nesse momento que
saíamos detrás dos galhos, íamos em direção às montanhas de pedra e começávamos
a lançar.
Era
catarse, era competição, era traquinagem, era piada... Cada “bang” vinha
acompanhado de um grito de comemoração. Às vezes alguém abdicava de contribuir
na sinfonia e jogava uma pedra por cima do trem, para mostrar que tinha força
para tanto. Entretanto, a maioria das pedras atingia seu alvo. A próxima série
de vagões era composta dos de cargas sólidas. Alguns deles vinham abertos,
expondo suas cargas de pedras, carvão e metais. Nesses, a brincadeira se
multiplicava. O atingir o ferro do vagão competia com o atingir o seu interior.
E nós intercalávamos: jogávamos uma pedra dentro, uma na parede, uma dentro,
uma na parede...
Risos,
pulos, terra, sol, poeira, som... até que o trem partia. Não tínhamos razão
para correr atrás dele e tentar atingi-lo ainda mais – já estávamos
satisfeitos. E sobrava fôlego. Esse a gente gastava no resto do dia e deixava
para recuperar depois. E sobravam pedras. Essas ficavam esperando a próxima vez.
04
de Agosto de 2015



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