quinta-feira, 27 de agosto de 2015 0 comentários

40 anos no deserto



Era Sábado e só por isso a frota estaria reduzida. Todo mundo sabia disso, mas ninguém se furtava a sair por esse pequeno empecilho. O que as pessoas não esperavam era, depois de trinta minutos de molho, que o ônibus passasse direto e não pegasse ninguém do ponto. Ok, acontece. Salvador, ponto pouco movimentado, final de semana... A gente deixa passar (como se tivéssemos opção).
Mais alguns minutos e passa o próximo. Ele fez que iria encostar e realmente encostou. Porém porque havia quebrado. Descarregou a multidão e partiu sozinho, de volta à garagem. Ficou conosco o cobrador, incumbido de nos colocar no ônibus seguinte. Nisso já haviam se passado mais de uma hora para os primeiros habitantes do ponto.
Já começavam a surgir chats, e o principal assunto era como a empresa e a prefeitura não estava nem aí para os passageiros. Junto a isto surgiam os assuntos pessoais. Em pouco, todo mundo já sabia onde todo mundo morava e com o quê trabalhava. Dizem que Moisés perambulou pelo deserto com seu povo por 40 anos não porque esse era o tempo necessário para cruzá-lo, mas porque ele queria fortalecer os laços e, ora, qual o melhor jeito de fortalecer laços se não juntar todo mundo e fazer passar pelas mesmas desgraças juntos?
Só sei que, quando o ônibus passou, as pessoas mostraram quase que um descontentamento, já que teriam que interromper os diálogos grupais. Não tivessem esperado por mais de uma hora, talvez admitissem não querer que o ônibus chegasse.
Não prestei muita atenção nas conversas que aconteceram dentro do coletivo, pois automaticamente meus fones viajam às orelhas. E eu estava atrasado para o aniversário de uma amiga, então tinha que ocultar da consciência a pressa de alguma forma. Eu estava sentado ao lado da tia que tinha me questionado por estar levando um Cortezano para o aniversário. Segundo ela, era falta de consideração não desembolsar um pouco mais e comprar um Martini. Que fique claro que prefiro Cortezano.
Três músicas depois e o ônibus para em um ponto. Não entra ninguém. O cobrador se levanta e vai falar com o motorista. Tiro os fones. Ele se vira, então, e anuncia:
-Pessoal, o freio quebrou. Infelizmente vamos ter que descer e mudar de carro!


Pablo Jacinto

12 de julho de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015 0 comentários

O dia em que não ganhei uma cabra

Esse era um dia bastante especial. Um dos eventos mais especiais, para uma cidade de 28mil habitantes. Como meio de arrecadar fundos para a reforma da Igreja Matriz da cidade, a paróquia organizou um leilão.
Foram semanas de divulgação. Na missa, na rádio, no carro de som... Divulgavam o leilão e pediam doações de itens para serem leiloados. Qualquer coisa, desde pequenos aparelhos domésticos, alimentos, objetos de arte, até animais. À medida em que as doações iam ocorrendo, os itens que seriam expostos para leilão eram anexado na divulgação do evento.
Foi então que doaram uma cabra. A cabra fez tanto sucesso que resolveram torná-la a atração principal da festa. Seria a única coisa a não ser leiloada, pois ela viraria prêmio de rifa. Um real, cada bilhete. Naquela semana economizei não indo no videogame, como fazia aos sábados e domingos, e comprei dois: 55 e 56. Comprei na sequência, porque era assim que era vendido. Eu queria aquela cabra.
Passaram-se os dias e chegou o esperado domingo. Tudo estava montado de frente à provisória capela, antes utilizada pelos ferroviários da região, mas que temporariamente abrigava as atividades da igreja enquanto a reforma não se encerrava. Havia cadeiras na frente, uma grande caixa de som, uma mesa com tudo o que seria leiloado e, ao lado da igreja, amarrada num pé de algaroba, estava A cabra, ruminando despretensiosamente.
O padre sentou na fila da frente. O restante, composto por beatos e gente que eu nunca tinha visto antes na igreja (na época eu era um frequentador, pois adorava o sabor da hóstia e tinha acabado de passar pela eucaristia), sentou nas fileiras de trás. Quem comandou foi um dos dois radialistas que a cidade tinha, e ele veio vestido a caráter, carregando um terço no pescoço – bem diferente de quando eu passava no bar e ele estava embriagado e com olhos vermelhos.
As crianças estavam dispersas. As que vieram apenas acompanhar os pais corriam nos arredores da capela. As interessadas no leilão, eu incluso, procuraram locais para se acomodar. Sentei na cerca que rodeava parte da praça, num local com vista para todos e, principalmente, para a cabra que seria minha.
E começou. Primeiro o discurso do padre, falando como era curta a verba da paróquia e afirmando o quanto era importante a ajuda dos fiéis para a concretização dos trabalhos que estavam sendo realizados. Depois o radialista tomou o microfone e começou o leilão. Os primeiros itens a serem leiloados foram os alimentos. Teve bolo de laranja sendo vendido a 25 reais!
-Temos aqui uma caixa de pintos – anunciou.
-Nossa, vinho! – comentou baixinho, uma mulher sentada ao lado do marido.
E foi uma concorrência esmagadora. As pessoas ofertavam lances de modo excepcional, e eu não entendia o porquê. Toda loja de materiais de agricultura vendia pintos, e nenhum bando era tão caro quanto aquele. Não lembro exatamente o preço, mas é inesquecível a cara da senhora que fez o comentário, após ir buscar a caixa de pintos, com a ajuda do marido, por julgar que era pesada por conter algumas garrafas de Pérgola, mas estar cheia com uma dúzia de franguinhos. Uma onda de frustração pairou na plateia, pois muitos outros haviam escutado errado. Claro que a discórdia logo se assentou, pois a maioria sentia um misto de alívio por não ter comprado aquele item, junto de temor por estar blasfemando contra uma ação – de certo modo – da igreja.
E assim o leilão seguiu. Bolos, galinhas, pintos, sacos de frutas, ferros de passar, panelas... tudo vendido a preço excepcional. Até que chegou o momento mais esperado: o sorteio da cabra.
Mais de quinhentos bilhetes foram vendidos. Para o sorteio, eles posicionaram um balaio cheio de papéis e, para não ter roubo, pegaram uma das crianças de colo e a jogaram dentro do cesto. O bilhete que a criança agarrasse primeiro conteria o número do campeão.
Todos se levantaram e cercaram o balaio. A criança não se assustou, já que os pais estavam presentes (tão aflitos quanto o restante; certamente concorrentes). Eu já tinha passado a manhã inteira olhando a cabra. Já tinha até descido da cerca para lhe dar um punhado de capim. Ela já me olhava querendo me ter como dono, eu sabia. Na mão de qualquer outra pessoa, seu futuro era o espeto. Comigo, ela seria animal de estimação. Se a minha mãe negasse o nosso quintal, ela poderia ir para a roça do meu avô, que se comprometeria em mantê-la viva.
Ademais, eu tinha dois bilhetes. Quantas pessoas ali tinham dois bilhetes? Provavelmente nem todas. Minhas chances estavam dobradas. O evento era da igreja e Deus sabia o quanto tinha sido difícil abdicar do videogame para contribuir com a Sua obra.
E a criança pegou. O padre assumiu a posição e arrancou delicadamente o papel da mão do menino.
-Número 127!



Pablo Jacinto

17 de julho de 2015
 
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