Esse era um dia bastante especial. Um
dos eventos mais especiais, para uma cidade de 28mil habitantes. Como meio de
arrecadar fundos para a reforma da Igreja Matriz da cidade, a paróquia
organizou um leilão.
Foram semanas de divulgação. Na missa,
na rádio, no carro de som... Divulgavam o leilão e pediam doações de itens para
serem leiloados. Qualquer coisa, desde pequenos aparelhos domésticos,
alimentos, objetos de arte, até animais. À medida em que as doações iam
ocorrendo, os itens que seriam expostos para leilão eram anexado na divulgação
do evento.
Foi então que doaram uma cabra. A cabra
fez tanto sucesso que resolveram torná-la a atração principal da festa. Seria a
única coisa a não ser leiloada, pois ela viraria prêmio de rifa. Um real, cada
bilhete. Naquela semana economizei não indo no videogame, como fazia aos
sábados e domingos, e comprei dois: 55 e 56. Comprei na sequência, porque era
assim que era vendido. Eu queria aquela cabra.
Passaram-se os dias e chegou o esperado
domingo. Tudo estava montado de frente à provisória capela, antes utilizada
pelos ferroviários da região, mas que temporariamente abrigava as atividades da
igreja enquanto a reforma não se encerrava. Havia cadeiras na frente, uma grande
caixa de som, uma mesa com tudo o que seria leiloado e, ao lado da igreja,
amarrada num pé de algaroba, estava A cabra, ruminando despretensiosamente.
O padre sentou na fila da frente. O
restante, composto por beatos e gente que eu nunca tinha visto antes na igreja
(na época eu era um frequentador, pois adorava o sabor da hóstia e tinha
acabado de passar pela eucaristia), sentou nas fileiras de trás. Quem comandou
foi um dos dois radialistas que a cidade tinha, e ele veio vestido a caráter,
carregando um terço no pescoço – bem diferente de quando eu passava no bar e
ele estava embriagado e com olhos vermelhos.
As crianças estavam dispersas. As que
vieram apenas acompanhar os pais corriam nos arredores da capela. As
interessadas no leilão, eu incluso, procuraram locais para se acomodar. Sentei
na cerca que rodeava parte da praça, num local com vista para todos e,
principalmente, para a cabra que seria minha.
E começou. Primeiro o discurso do padre,
falando como era curta a verba da paróquia e afirmando o quanto era importante
a ajuda dos fiéis para a concretização dos trabalhos que estavam sendo
realizados. Depois o radialista tomou o microfone e começou o leilão. Os
primeiros itens a serem leiloados foram os alimentos. Teve bolo de laranja
sendo vendido a 25 reais!
-Temos aqui uma caixa de pintos –
anunciou.
-Nossa, vinho! – comentou baixinho, uma
mulher sentada ao lado do marido.
E foi uma concorrência esmagadora. As
pessoas ofertavam lances de modo excepcional, e eu não entendia o porquê. Toda
loja de materiais de agricultura vendia pintos, e nenhum bando era tão caro
quanto aquele. Não lembro exatamente o preço, mas é inesquecível a cara da
senhora que fez o comentário, após ir buscar a caixa de pintos, com a ajuda do
marido, por julgar que era pesada por conter algumas garrafas de Pérgola, mas
estar cheia com uma dúzia de franguinhos. Uma onda de frustração pairou na
plateia, pois muitos outros haviam escutado errado. Claro que a discórdia logo
se assentou, pois a maioria sentia um misto de alívio por não ter comprado
aquele item, junto de temor por estar blasfemando contra uma ação – de certo
modo – da igreja.
E assim o leilão seguiu. Bolos,
galinhas, pintos, sacos de frutas, ferros de passar, panelas... tudo vendido a
preço excepcional. Até que chegou o momento mais esperado: o sorteio da cabra.
Mais de quinhentos bilhetes foram
vendidos. Para o sorteio, eles posicionaram um balaio cheio de papéis e, para
não ter roubo, pegaram uma das crianças de colo e a jogaram dentro do cesto. O
bilhete que a criança agarrasse primeiro conteria o número do campeão.
Todos se levantaram e cercaram o balaio.
A criança não se assustou, já que os pais estavam presentes (tão aflitos quanto
o restante; certamente concorrentes). Eu já tinha passado a manhã inteira
olhando a cabra. Já tinha até descido da cerca para lhe dar um punhado de
capim. Ela já me olhava querendo me ter como dono, eu sabia. Na mão de qualquer
outra pessoa, seu futuro era o espeto. Comigo, ela seria animal de estimação.
Se a minha mãe negasse o nosso quintal, ela poderia ir para a roça do meu avô,
que se comprometeria em mantê-la viva.
Ademais, eu tinha dois bilhetes. Quantas
pessoas ali tinham dois bilhetes? Provavelmente nem todas. Minhas chances
estavam dobradas. O evento era da igreja e Deus sabia o quanto tinha sido
difícil abdicar do videogame para contribuir com a Sua obra.
E a criança pegou. O padre assumiu a
posição e arrancou delicadamente o papel da mão do menino.
-Número 127!
Pablo
Jacinto
17
de julho de 2015
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