“Amiga, fui muito mal na prova”. Mal havia subido no ônibus lotado e me acomodado em um espaço vago, na parte do fundo, foi esta a primeira frase que ouvi, partindo de uma amiga à outra – ambas, também de pé. “Acho que vou abandonar o curso, comecei agora e já estou me saindo desse jeito, na matéria!”. Pronto. Foi o suficiente para a amiga ligar o modo conselheira e jogar na mesa todo aquele roteiro que, muito provavelmente, a desesperada já tinha conhecimento, mas teria apreço e prazer em ouvir novamente.
“Mas menina, não abandone. É normal não ir bem em algumas
matérias. Olhe só em quantas matérias você foi exemplar. Ainda tem cinco anos
de curso, pela frente, então acostume-se...” são alguns trechos do discurso
dito.
A esta altura, meu fone de ouvido já exercia seu
papel de acessório de espião. Estava tocando música, mas no volume mínimo
possível que me permitisse ouvir a história com trilha sonora dos Smiths.
Reparem vocês e decidam se não foi o Universo, pregando das suas. Meia hora
antes, eu estava, junto com colegas, em uma turma de cursinho discutindo os
desafios da escolha profissional. Pode não ser ético escutar a conversa dos
outros, mas recusar um presente também não é. E aquela situação era a montagem
perfeita. A proximidade ocasionada pela superlotação tem algumas vantagens,
afinal.
E, como previ, a conversa foi o gatilho para um
diálogo sobre a vida universitária. A coitada só via o namorado nos fins de
semana, agora que começou a estudar. Não tinha mais tempo para dormir direito.
Estava afogada de Xerox que nunca seriam lidas. Repito: previsível. Eu já até
compartilhava com ela sua frustração pela turma mesquinha cheia de gente que
não sabia trabalhar em grupo.
De repente seu telefone toca. Dentro da sua bolsa.
No colo de um sortudo que provavelmente subiu no ônibus na estação.
“Alô. Oi! Como assim? Você está onde? Sim, mas diga:
VO-CÊ ES-TÁ ON-DE?”.
Ai meu deus, será que aconteceu alguma coisa com
algum conhecido dela?
“Sim, responda! Diga o que aconteceu! A ligação não
está boa, diga rápido”.
Eu sentia a tensão na sua voz. Não sei lidar com
lutos, nem com notícias ruins dadas por telefone, tomara que esteja tudo bem
com os conhecidos dela.
“Mas Mara, você me liga uma hora dessas para me
dizer essas coisas? E eu lá sei!? Resolvam-se vocês dois!”
Maldita Mara, criadora de aflições desnecessárias.
Aumentei o volume do som.
Pablo Jacinto
22
de outubro de 2014



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