quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016 0 comentários

Quando a fatura chega





Na rua inteira, só a minha avó tinha telefone fixo. Chegada a conta, no início do mês, vinha aquele momento que eu e meus primos mais esperávamos: sair nas casas à procura dos vizinhos que utilizaram o telefone da minha avó. Naquele tempo, nem todo mundo tinha acesso a dispositivos móveis e o mais comum mesmo era ligar do telefone fixo ou comprar os revolucionários cartões telefônicos (que serviam até de material para coleção).
Antes de tudo, a gente fazia um rascunho com os nomes de quem possivelmente tinha ligado para aquele número. Não era sempre com muita acurácia, mas às vezes conseguíamos adivinhar.
-Lembra aquela vez que dona Zulmira veio aqui e ficou quase uma hora no telefone? Essa ligação demorada deve ser dela!
-Menino, a pessoa liga para os parentes de São Paulo, mas não economiza nos gritos e nas broncas. Ao invés de só aproveitar para matar a saudade de forma gentil, né!
-E está vendo esse número aqui? – apontava – Várias ligações para ele. Tudo na mesma hora. Isso só pode ser de Carminha, que quase todo dia estava aqui ligando sei lá para quem!
O telefone era posicionado num canto da casa que não atrapalhava muito nenhum morador, então era tranquilo. Ainda assim, era um incômodo a pessoa vir todo dia às nove da noite pra fazer uma ligação.
-Ela que bote o seu telefone, já que usa tanto – um retrucava.
-Avemaria, menino. Larga de ser ruim.
E assim prosseguíamos, tentando adivinhar o número de quem era quem. Muito esperta, às vezes minha avó anotava as datas com os nomes e horários, mas aquilo não tinha graça nenhuma, então a convencemos a abandonar a prática.
O bom de ir nas casas dos vizinhos era que sempre dava para fazer uma visitinha no quintal, enquanto eles procuravam o dinheiro e analisavam a conta do telefone para saber se estava tudo OK. Então a gente ficava lá, colhendo frutas e se pendurando nas árvores.
Passada a rua toda, voltávamos felizes e capitalizados, prontos a entregar o dinheiro para minha avó e talvez ganhar um real para gastar de doce na padaria.
Mas a coisa foi mudando, a tecnologia veio em tsunamis cada vez mais poderosas e o meu mundo caiu quando, passando na frente da casa de Carminha, eu pergunto à moradora que fazia crochê na varanda:
-Oi, Carminha! Não vai ligar hoje não?
-Vou não, meu filho: comprei um celular!

Salvador, 21 de janeiro de 2016
 
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