Manhã de Sábado. Provavelmente,
foi uma noite bem trabalhosa, no terreiro aqui da rua. Acordo de manhã e vou
para o ponto de ônibus, para encerrar as atividades da semana.
Na frente do ponto, uma
rotatória. No meio da rotatória, um ebó. Ebó simples, com algumas tigelas de
caruru, umas velas e um pouco de pipoca.
Eis que surgem dois sujeitos.
Bíblia debaixo do braço, camisa de manga comprida em pleno calor de Salvador às
8h de fim de inverno. Na mão desocupada, cada um carregava um pacote de 1kg de
sal. No pacote, um furo que permitia o vazamento de uma quantidade
considerável, que serviria para desenhar o chão. Partindo de um mesmo ponto,
tomaram direções opostas, sempre depositando sal no chão e murmurando palavras
inaudíveis. Encontraram-se na outra extremidade, com o círculo de sal já
formado. Jogaram os pacotes vazios no chão (absurdo! não sabem que plástico
demora quase cem anos para se decompor?) e direcionaram-se ao centro, nas
proximidades do nosso amigo ebó.
A partir daí, começa a melhor
cena: ambos estendem os braços em formato de aviãozinho - segurando as bíblias
de bolso, claro - e começam a bradar palavras "ditas do senhor".
Gritaram, gritaram, gritaram. As pessoas do ponto de ônibus já comentavam e
davam risinhos. O ebó permanecia imóvel. Eu próprio já estava embaraçado pelo
ebó, coitado, que ouvia aqueles brados furiosos mais de perto. Gritaram mais um
pouco. As pessoas que esperavam ônibus já não tiravam os olhos (E os risos. E
os comentários) daquela direção.
Acabado o ritual, os cavalheiros
seguiram seu caminho, provavelmente satisfeitos. As pessoas do ponto trataram
de voltar a pensar no quanto o Mirantes/Ondina demorava de passar. O ebó
continuava com sua arquitetura impecável. Eu permanecia pasmo.
29 de Setembro de 2014



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