-Foi
o Boto.
E
todos acreditaram. A família, claro, foi quem mais se frustrou. Afinal, já
estavam cansados de avisá-la: “Menina, não tem por quê passar as tardes na
beira do rio”. Mas ela ia. Vestia sua melhor roupa e ia.
Essa
era a segunda vez que o Boto a engravidava. Da primeira, o bebê morrera aos
seis meses, asfixiado pelo próprio cordão umbilical.
-Castigo
divino – disse o senhor sentado no bar.
-É
ciência, seu Astor. As espécies diferentes não podem se cruzar. Num vê que nem
cachorro, quando é muito diferente, não dá certo? – O dono do bar, se sentindo
inteligente por estar falando isto que havia ouvido na televisão.
Mas
dessa vez ela não teve tanta sorte. O nono mês estava aí, e a barriga estava em
vias de explodir. E assim o fez. Foi tanto sangue que, em meio a delírios de
beira de morte, ela falou à sua mãe que o Boto tinha nome e morava na rua do
lado: Roberval Pereira.
Apesar
do susto, ela se recuperou. Em poucos meses, casou-se com Roberval, na capela
da cidade. Antes do beijo, não esqueceu de olhar para a criança, no colo da
sogra, envolto em três mantas e com uma chupeta improvisada, na boca.
E o
tempo passou, mas a história do Boto não. O menino era conhecido como
Filho-do-Boto, e só se ouvia o seu nome verdadeiro na chamada da escola. Teve gente
que não engoliu a história do Roberval.
-Ela
viu que a criança ia nascer e tratou logo de arrumar um pai para sustentar –
destilou, dona Carminha, enquanto fazia as unhas na calçada.
-Já
viu o menino na água? Nada mais que peixe. Dizem até que consegue respirar
submerso – junto de dona Carminha, dona Firmina ajeitava os bobes, no intuito
de conseguir os cachos para a festa dessa noite. Mal sabia ela que boto não
respira submerso.
E o
Filho-do-Boto ignorava os comentários maldosos. Abraçava o pai Roberval com
orgulho daquele homem que o tinha feito engolir uma piaba, para aprender a
nadar com maestria. Ia ao rio, no período de cheia, e nadava, nadava, nadava
até se esquecer de Carminha, de bar, de dono de bar, de senhor que se senta no
bar, de Firmina, de tudo.
E
foi assim que conheceu sua primeira namorada. Nadando estava, quando percebeu a
garota boiando desacordada. E nadando foi salvá-la. Nadando a trouxe para a
margem. De pé, agarrado nos galhos do igarapé, a arrastou até o lugar mais seco
o possível e a reviveu com dois socos no peito.
E
sua primeira namorada tornou-se sua primeira esposa e lhe deu seu primeiro
filho. O Filho-do-Boto agora estava casada com a Dama-das-Águas, e tinha um
herdeiro que – assim como todo o resto da cidade – desconhecia as origens de
sua mãe, amnésica acerca do seu passado.
Os
três nadavam diariamente. Depois, semanalmente. Depois, mensalmente. Um dia
pararam: o Filho-do-Boto, já órfão, não aguentava mais forçar os braços. Não
demorou muito, também não aguentava forçar as costelas. Asfixiou-se emerso da
água, mas imerso em satisfação.
Pablo Mateus dos Santos Jacinto
28 de julho de 2015


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