quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Ebó e os Cavalheiros




Manhã de Sábado. Provavelmente, foi uma noite bem trabalhosa, no terreiro aqui da rua. Acordo de manhã e vou para o ponto de ônibus, para encerrar as atividades da semana.
Na frente do ponto, uma rotatória. No meio da rotatória, um ebó. Ebó simples, com algumas tigelas de caruru, umas velas e um pouco de pipoca. 
Eis que surgem dois sujeitos. Bíblia debaixo do braço, camisa de manga comprida em pleno calor de Salvador às 8h de fim de inverno. Na mão desocupada, cada um carregava um pacote de 1kg de sal. No pacote, um furo que permitia o vazamento de uma quantidade considerável, que serviria para desenhar o chão. Partindo de um mesmo ponto, tomaram direções opostas, sempre depositando sal no chão e murmurando palavras inaudíveis. Encontraram-se na outra extremidade, com o círculo de sal já formado. Jogaram os pacotes vazios no chão (absurdo! não sabem que plástico demora quase cem anos para se decompor?) e direcionaram-se ao centro, nas proximidades do nosso amigo ebó.
A partir daí, começa a melhor cena: ambos estendem os braços em formato de aviãozinho - segurando as bíblias de bolso, claro - e começam a bradar palavras "ditas do senhor". Gritaram, gritaram, gritaram. As pessoas do ponto de ônibus já comentavam e davam risinhos. O ebó permanecia imóvel. Eu próprio já estava embaraçado pelo ebó, coitado, que ouvia aqueles brados furiosos mais de perto. Gritaram mais um pouco. As pessoas que esperavam ônibus já não tiravam os olhos (E os risos. E os comentários) daquela direção.
Acabado o ritual, os cavalheiros seguiram seu caminho, provavelmente satisfeitos. As pessoas do ponto trataram de voltar a pensar no quanto o Mirantes/Ondina demorava de passar. O ebó continuava com sua arquitetura impecável. Eu permanecia pasmo.



29 de Setembro de 2014

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