Dois ou três pontos estratégicos foram o bastante para completar a
lotação máxima humanamente possível de se suportar. Mais um ponto e o ônibus já
ultrapassava este limiar de multidão. Ainda mais em dia de jogo do Brasil. Duas
horas antes de começar a partida. As empresas liberaram mais cedo e o trânsito
tinha todos os ingredientes para se tornar infernal (e, claro, assim o fez).
Da janela, as pessoas viam os carros ultrapassarem o ônibus. Uma hora
vivenciando isto e os gritos começam a emergir:
-Que motorista atrasalado!
É o bastante para despertar a frustração oculta nas pessoas. Todos
revelam sua face de indignação e começam a bufar. Protestam, uns mais, outros
menos alto.
-Ê, motorista, todo mundo te passa!
-Eu quero ver o jogo, viu! Para de ser lerdo!
Sabiam que – com as reclamações – o ônibus não iria ganhar hélices e
seguir por cima do engarrafamento. Mas sabiam também que os ônibus da outra
fila estavam andando mais rápido. Quem sabe o motorista não dava um jeito de
agilizar? Pois bem, ainda tinham repertório e iriam usá-lo.
Passaram ponto crítico e o trânsito já fluía bem. Para o restante dos
carros. Aquele ônibus parava em todos os pontos e semáforos possíveis. Faltava
menos de meia hora para o jogo começar.
-Motorista, você está de baratino com a gente, é?
-Ele deve torcer para a Argentina.
-Não torce para ninguém, essa “miséra”.
Obviamente, já era um campeonato de oratória e ninguém se contentava
em guardar os seus comentários no privado do pensamento. Então, entre todas as
vozes, uma destoa:
-Motorista, seu corno, adianta isso aí!
-Ô DESGRAÇA, NÃO ESTÁ VENDO QUE TEM GENTE PEDINDO PONTO, NÃO?
-Gente, o motorista se irritou.
-Ave Maria... chame de tudo, mas não chame de corno.
-Daqui a pouco ele desliga o ônibus e vai embora com a chave!
-Mas eu conheço esse motorista, ele é cristão.
-E daí? Melhor ainda, que depois ele ora e ganha o perdão dele.
O motorista não acelerou. Alguns diziam que ele estava vagaroso,
agora, por pirraça. Quando o jogo começou, ainda havia muita gente espremida no
coletivo. E assim como para encher, também bastaram dois ou três pontos
estratégicos para o ônibus esvaziar. Em um deles, com aquele montante
desembarcando, se ouve, do fundo:
-Motorista, quem te chamou de corno foi essa aí de vermelho!
Pablo Mateus dos
Santos Jacinto
17 de junho de 2014



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