Certo... ele estava naquela condição por dois grandes acasos. O primeiro, político: antes que ele nascesse, aquele que seria seu irmão mais velho – na época, com três anos – havia sido envenenado em um esquema que culminou também na morte do seu tio paterno, acusado como mandante do ato. O segundo acaso era biológico: nascer numa família de sangue azul não era algo estatisticamente tranquilizador. Só que tudo isso não significava que ele poderia se dar ao luxo de ser estúpido, estando ocupando uma posição de monarca de um reino tão vasto e com servos tão vis.
Assim
sendo, riu muito, por dentro, quando aquele camarada apareceu fazendo
movimentos estranhos com as mãos e dizendo que tocava um tecido invisível e
impalpável aos impuros. Era cômico o teatro e eram cômicas as faces humilhadas
e mentirosas dos súditos do palácio, que esforçavam-se para demonstrar
admiração pelo tecido inexistente e preservarem o mínimo de autoestima que
ainda lhes restava. Comprou tal roupa e marcou o desfile de exibição.
No
desfile, a graça se multiplicou. Agora não era meia dúzia, mas alguns milhares
de sujeitos fazendo expressões involuntárias de derrota, mas tentando parecer
altivos aos olhos uns dos outros.
-Mas
ele está nu! – Grita uma criança.
-Uma
criança é o poço da pureza, ela não pode estar mentindo – um dos senhores da
audiência problematizou, criando o maior rebuliço no público.
Na
cabeça do rei, um “maldita criança!” ecoava. Ele não concordava nessa máxima de
que criança e pureza se confundem, mas sabia que os seus súditos sim. Não se
importava por todos estarem achando que ele era impuro – nunca teve essa
pretensão. O que o incomodava era o fato de não saber quando teria outra
oportunidade de satisfazer tão facilmente e com tanta troça os seus fetiches
exibicionistas.
31 de agosto de 2015



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