terça-feira, 1 de setembro de 2015

O que há de novo para o rei?



Certo... ele estava naquela condição por dois grandes acasos. O primeiro, político: antes que ele nascesse, aquele que seria seu irmão mais velho – na época, com três anos – havia sido envenenado em um esquema que culminou também na morte do seu tio paterno, acusado como mandante do ato. O segundo acaso era biológico: nascer numa família de sangue azul não era algo estatisticamente tranquilizador. Só que tudo isso não significava que ele poderia se dar ao luxo de ser estúpido, estando ocupando uma posição de monarca de um reino tão vasto e com servos tão vis.
Assim sendo, riu muito, por dentro, quando aquele camarada apareceu fazendo movimentos estranhos com as mãos e dizendo que tocava um tecido invisível e impalpável aos impuros. Era cômico o teatro e eram cômicas as faces humilhadas e mentirosas dos súditos do palácio, que esforçavam-se para demonstrar admiração pelo tecido inexistente e preservarem o mínimo de autoestima que ainda lhes restava. Comprou tal roupa e marcou o desfile de exibição.
No desfile, a graça se multiplicou. Agora não era meia dúzia, mas alguns milhares de sujeitos fazendo expressões involuntárias de derrota, mas tentando parecer altivos aos olhos uns dos outros.
-Mas ele está nu! – Grita uma criança.
-Uma criança é o poço da pureza, ela não pode estar mentindo – um dos senhores da audiência problematizou, criando o maior rebuliço no público.
Na cabeça do rei, um “maldita criança!” ecoava. Ele não concordava nessa máxima de que criança e pureza se confundem, mas sabia que os seus súditos sim. Não se importava por todos estarem achando que ele era impuro – nunca teve essa pretensão. O que o incomodava era o fato de não saber quando teria outra oportunidade de satisfazer tão facilmente e com tanta troça os seus fetiches exibicionistas.



31 de agosto de 2015

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