Era Sábado e só por isso a frota estaria reduzida. Todo mundo sabia disso, mas ninguém se furtava a sair por esse pequeno empecilho. O que as pessoas não esperavam era, depois de trinta minutos de molho, que o ônibus passasse direto e não pegasse ninguém do ponto. Ok, acontece. Salvador, ponto pouco movimentado, final de semana... A gente deixa passar (como se tivéssemos opção).
Mais alguns minutos e passa o
próximo. Ele fez que iria encostar e realmente encostou. Porém porque havia
quebrado. Descarregou a multidão e partiu sozinho, de volta à garagem. Ficou
conosco o cobrador, incumbido de nos colocar no ônibus seguinte. Nisso já
haviam se passado mais de uma hora para os primeiros habitantes do ponto.
Já começavam a surgir chats, e o
principal assunto era como a empresa e a prefeitura não estava nem aí para os
passageiros. Junto a isto surgiam os assuntos pessoais. Em pouco, todo mundo já
sabia onde todo mundo morava e com o quê trabalhava. Dizem que Moisés
perambulou pelo deserto com seu povo por 40 anos não porque esse era o tempo
necessário para cruzá-lo, mas porque ele queria fortalecer os laços e, ora,
qual o melhor jeito de fortalecer laços se não juntar todo mundo e fazer passar
pelas mesmas desgraças juntos?
Só sei que, quando o ônibus passou,
as pessoas mostraram quase que um descontentamento, já que teriam que
interromper os diálogos grupais. Não tivessem esperado por mais de uma hora,
talvez admitissem não querer que o ônibus chegasse.
Não prestei muita atenção nas
conversas que aconteceram dentro do coletivo, pois automaticamente meus fones
viajam às orelhas. E eu estava atrasado para o aniversário de uma amiga, então
tinha que ocultar da consciência a pressa de alguma forma. Eu estava sentado ao
lado da tia que tinha me questionado por estar levando um Cortezano para o
aniversário. Segundo ela, era falta de consideração não desembolsar um pouco
mais e comprar um Martini. Que fique claro que prefiro Cortezano.
Três músicas depois e o ônibus para
em um ponto. Não entra ninguém. O cobrador se levanta e vai falar com o
motorista. Tiro os fones. Ele se vira, então, e anuncia:
-Pessoal, o freio quebrou.
Infelizmente vamos ter que descer e mudar de carro!
Pablo Jacinto
12 de julho de 2015



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